quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Moralidade

A Forca mental


“Existe melhor catalisador de reflexão do que a chuva?” – Pensou João, com a cabeça apoiada sobre o vidro do ônibus, fitando cenas do cotidiano com seus olhos escandalosamente abertos, típicos de uma pessoa que não está mentalmente presente. Em uma sexta-feira tumultuada pelo fim do expediente, era usual pessoas se apertando entre os corredores e minúsculos espaços.

Grande parte da viagem ele passou revendo estratégias financeiras de como honrar suas dividas mensais e ainda colaborar com sua mãe, que idosa, precisava de cuidados especiais cujo infelizmente, não poderia bancar sozinha. Só era trazido de volta aos confins da realidade mesmo quando a música cessava em seus ouvidos durante as trocas de faixa de seu aparelho mp3. Em um desses repentinos e inconvenientes momentos, trocou olhares com uma senhora de idade que de pé, sinalizava o ônibus para a próxima parada. Indignado consigo mesmo, se julgava culpado por não ter a avistado antes e oferecido seu lugar para a pobre senhora que agora era esmagada pelas mochilas dos estudantes enquanto tentava cruzar o corredor até a porta. Porém, nada mais poderia ser feito pela mulher, pensou usando da pouca realidade que seu corpo cansado lhe permitia.

Ruas depois, a porta traseira se abriu e um senhor de cabelos brancos escalou as escadas molhadas com o auxilio de algumas pessoas, prontamente João levantou-se e ofereceu seu assento, que foi bem vindo pelo presenteado. Com seu ponto de descida próximo e agora moralmente reestabelecido, guardou sua aparelhagem devidamente na bolsa e levantou-se, surpreso, novamente trocou olhares inconvenientes com a mesma velha senhorinha, que ao seu lado conversava com um rapaz, também jovem expelindo palavras de indignação.

Subitamente aquela sexta-feira chuvosa se tornou um palco sem cores para João, que sentia olhares perfurando sua pele de todas as direções, envergonhado e confuso buscava no ar razões, depois de um tempo arquitetou o acontecimento e lamentou, a senhora indicou o sinal para descer como um favor para outra pessoa, e ao ceder o lugar para o idoso, fez com que todos pensassem que ele requisitou o lugar pra si mesmo. Que trágico, concluiu.

Analisou que nem toda a gratidão e satisfação das gentilezas que fez durante sua vida não tirava o peso da faca chamada moralidade de seu peito, estático não entendia a razão de um obrigado ser tão superficial quando comparado com uma grosseria, mesmo que não intencional. Exposto e vulnerável se sentia péssimo naquele dia que agora mais do que nunca parecia um quadro esboçado em escala de cinza, “Nem a chance de provar o contrario, eu terei” magoado pobre João balbuciava, mas conformado desceu do ônibus sabendo que o ser humano tinha sua atenção voltada apenas para as más intenções que o cerca, esperando para julgar um outro a qualquer abertura, com pedras se fosse preciso, como nos velhos filmes da idade média. Finalizou abrindo seu portão, somando outra experiência de vida, seus defeitos sempre serão mais aparentes do que suas qualidades, questionou: “Será essa a execução publica do século vinte um?”.

2 comentários:

  1. Muito interessante o conto. Realmente mostra que os padrões atuais de moralidade da sociedade bota uma pressão em tanto em todos que fogem desse padrão.

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  2. "sabendo que o ser humano tinha sua atenção voltada apenas para as más intenções que o cerca" - É o que a TV ensinou para eles caro amigo.

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